quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Questão de saúde pública

Imagine você enfiando o garfo em um apetitoso ovo de codorna. Prestes a colocá-lo na boca, você pressente o fedor de enxofre e descarta-o com uma careta.

Pois é assim que me sinto ao tentar ler alguma coisa do noticiário político em qualquer um de nossos "grandes" jornais - não falo dos telejornais pois eles não fazem parte de meu cardápio a bons 7 meses. Páginas e tintas gastas entorno do nada, do vazio, da propaganda partidária dissimulada, em um grave atentado à razoabilidade e ao meio ambiente. Para alguns poucos, nesses veículos está o que restou da inteligência brasileira... para a maioria já calejada, trata-se apenas de saber "o que está rolando", deixando de lado as opinionices.

Este é o caso do "Caso Lina Vieira". Aliás, pensando bem tranquilamente, que caso??? Essa senhora disse que teve um encontro secreto com Dilma, mas não se lembra do diálogo, da hora e nem do dia... e disse não ter comentado com ninguém. Enfim, não disse nada, absolutamente nada. E isto seria a conclusão óbvia para toda aquela maioria que tem outras preocupações e ocupações na vida. Mas não é o caso de nossa "grande imprensa livre".

Eu assisti o depoimento daquela senhora ao vivo (uma parte dele, claro) e, para mim, poderia ter durado 30 minutos. Mas durou horas! No dia seguinte, vejo pelas manchetes de O Globo e da Folha (na verdade são a mesma coisa sempre, sendo a segunda voltada para um público um pouco mais idiotizado) que se tratava de outro depoimento. Tento começar a ler as matérias, mas o cheiro de enxofre bloqueia os dentes.

Como alguém se permite a engolir esse ovo podre? Vejamos.

1) Lina diz ter sido uma "reunião secreta" - papo confortável, pois, se foi secreta, não teria testemunhas, o que não a obrigaria a apresentar evidências de ter ocorrido.

2) Lina diz não ter registro. Claro, era secreta. Ela diz que não comentou com ninguém. Pronto! Assim seria mais secreta ainda e diria a todos: "vocês precisam acreditar em mim".

3) Lina diz não se lembrar do dia nem da hora nem do diálogo de dez minutos. Talvez, neste caso, os idiotas precisem de um desenho para entender: essa senhora foi ter com a ministra-chefe da Casa Civil - não foi um encontro corriqueiro portanto - mas não registrou na memória nada do evento?

4) Lina diz que bastaria cutucar as fitas de gravação do prédio e as anotações de um segurança que encontrou. Essa é para os acéfalos completos: se a sujeita não se lembra pelo menos do dia certo, como resgatar as fitas? Claramente, joga com a galera, joga verde...

5) Lina diz que falou com a secretária de Dilma, que a conduziu à sala. Mais verde: Lina sabe que se a secretária negasse, passaria a ideia de que estava protegendo sua chefe. Ou seja: bastaria a "palavra dela" (da Lina).

6) Lina foi DEMITIDA... mas diz não ter mágoas. Acreditou? Lamento.

7) Sobre a imprensa: o que há de bombástico ou mesmo de articulado na declaração "não preciso de agenda para falar a verdade"??? O que significa isso? Mesmo assim, mereceu destaque.

8) O mais importante de tudo: Lina diz que Dilma teria pedido para "dar celeridade ao processo contra do filho do Sarney". Significado: dar agilidade, ser mais rápida, resolver pendências, resolver logo isso. Alguém interpretou como "encerrar" o caso, "liberar" o Sarneyzinho. Ou seja: tudo começou com uma "interpretação" pessoal, a mídia, em campanha para 2010, com candidato pré-escolhido, deu holofote... pouca gente deu bola... a não ser certos "grupos de interesse". Saberemos quem são? Una os pontos.

9) O Caso Sarney não deu "certo". Além disso, levaria um amiguinho junto (aquele senador Artur Virgílio, do dedo indicador, ex-modelo de ética). Então, Lina é o que tinham - não tinham nada, desde o início, mas são verdadeiros alquimistas - ou ainda se acham assim.

Pensando bem, mesmo tendo ocorrido o tal encontro, o que garante sobre o assunto tratado? "Ah! Mas então a Dilma teria mentido!" Pois então, "Meu Deus! Eles mentem!". Sim, "eles". Nós, não. Iríamos descobrir: só agora esclarecemos que políticos mentem (!?)

Querem saber, às vezes eu minto: digo que gostei de determinada sobremesa quando, na verdade, a detestei.

Hoje em dia, dou uma bela olhada nos ovos que pretendo comer, de modo a evitar surpresas. Mas as náuseas não me deixam. Penso se não seria questão de saúde pública no Brasil a leitura de jornais ou mesmo de sites de grandes empresas jornalisticas. Principalmente em temporada de eleições.